20 de julho de 2012

#19

"Eis aqui as partidas que prega a memória. Talvez eu esteja a esquecer factos de capital importância, mas recordo-me da emoção que senti naquela noite quando, junto da Pont Royal, me detive, atingido por um súbito clarão. Estava em frente do estaleiro da nova sede do Journal Officiel de l'Empire Français que, de noite, para acelerar os trabalhos, estava iluminado pela corrente eléctrica. No meio de uma floresta de traves e de andaimes, uma fonte muito luminosa concentrava os seus raios sobre um grupo de pedreiros. Nada pode pôr em palavras o efeito mágico daquele clarão sideral, que resplandece sobre as trevas em volta.
A luz eléctrica... Naqueles anos, os tolos sentiam-se circundados pelo futuro. Tinha sido aberto um canal no Egipto que unia o Mediterrâneo ao mar Vermelho, pelo que, para ir até à Ásia já não era necessário dar a volta a África (e assim seriam prejudicadas tantas honestas companhias de navegação), tinha sido inaugurada uma exposição universal cuja arquitectura fazia intuir que aquilo que tinha feito Haussmann para destruir Paris era apenas um começo, os americanos estavam a terminar uma via-férrea que haveria de atravessar o seu continente de oriente a ocidente e, dado que tinham acabado de dar a liberdade aos escravos negros, eis que aquela arraia-miúda trataria de invadir todas as nações, fazendo-as tornar-se um pântano de mestiços, pior do que os hebreus. Na guerra americana entre Norte e Sul, tinham aparecido navios submarinos, em que os marinheiros já não morriam afogados, mas sim asfixiados debaixo de água, os belos charutos dos nossos pais estavam para ser substituídos por cartuchos entisicados que ardiam num minuto, tirando todo o prazer ao fumador, os nossos soldados há algum tempo que comiam carne estragada conservada em latas de metal. Na América, diziam que tinham inventado uma cabinezinha hermeticamente fechada que fazia as pessoas subirem aos pisos altos de um edifício por obra de um qualquer êmbolo de água - e já se sabia de êmbolos que se tinham partido num sábado à noite e de pessoas que tinham ficado bloqueadas durante duas noites naquela caixa, privadas de ar, para não dizer de água e de comida, de maneira que tinham sido encontradas mortas na segunda-feira.
Todos se regozijavam porque a vida se estava a tornar  mais fácil, estavam a ser estudadas umas máquinas para se falar à distância, outras para escrever mecanicamente sem a pena. Continuariam ainda um dia a existir originais para serem falsificados?
As pessoas deliciavam-se com as montras dos perfurmistas onde se celebravam os milagres do princípio tonificante para a pele com leite de alface, do regenerador dos cabelos com quinino, do creme Pompadour com água de banana, do leite de cacau, do pó-de-arroz com violetas de Parma, tudo descobertas para tornar atraentes mulheres mais lascivas, mas agora também à disposição das costureiras, prontas a converter-se em mantidas, porque em muitas alfaiatarias se estava introduzindo uma máquina que cosia em vez delas.
A única invenção interessante dos novos tempos tinha sido um objecto de porcelana para defecar estando sentados."
Umberto Eco, em "O Cemitério de Praga"
. . . 

*ora aqui está um dos excertos mais hilariantes que li neste livro.. de tal forma hilariante que tinha que partilhar convosco. 

*adoro a descrição que faz das "novas" invenções: a luz eléctrica, o tabaco, o elevador, o telefone, a máquina de escrever, os produtos de beleza, a máquina de costura e por fim a sanita.. lindooo!!!

2 comentários:

  1. Ahahah...gostei bastante. Esse homem é mágico nas suas descrições.

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    1. *é verdade.. o livro no início é um bocado chato e estranho, mas as últimas 150 páginas que li devorei-as por completo..

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